2020....."para não dizer que só falei de flores"


Quando amanheceu o dia 1/2020 pensei: que ano lindo estamos iniciando....uma numerologia tão harmônica, um ano espelhado, grandes transformações certamente teremos!

Não demorou muito e subitamente, dei-me conta que estava dentro de um filme de ficção. Lembrei de filmes como o Feitiço do Tempo (onde todos os dias são o mesmo dia..) e uma cena de Vanilla Sky........( quando saindo as ruas o personagem não encontra ninguém!).

Aliado ao cenário de mortes de forma descontrolada, o que parecia uma guerra tinha agora soldados em uniformes brancos. O inimigo era invisível.....lutar com um fantasma, sim porque um virus não é um ser, é apenas uma informação.....curioso isso! Estávamos sendo mortos por uma informação.....


Precisávamos “ficar em casa, estaríamos protegidos em nossos lares”. O vírus, a “informação”, escondia-se nas conversas, nos sorrisos, nos abraços, no corpo, nas roupas, .....e as crianças tornaram-se vetores silenciosos! ...Que momento cruel e apartado de tudo que compreendemos como existência humana!...


A “informação” foi sendo decodificada. Ela deveria ser originária da invasão humana no mundo animal. Estávamos a ingerir a alma dos morcegos....zumbis, que só saem a noite, apesar de viverem em bandos, tem vida solitária, enclausuram-se em suas próprias asas e nutrem-se do sangue animal( em nossa construção inconsciente).....!!


Meus livros de cabeceira nesses dias tem sido dois: “Sociedade do Cansaço” (Byng-chul Han), e “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” ( Ailton Krenak). Leio e releio e reflito sobre o mundo que eu conheci e aquele que futuramente quero ter.

Dos livros, o primeiro, um filosofo coreano, e uma das principais referências da atualidade. E o segundo, de um indígena, ativista socioambiental, organizador da Aliança dos Povos da Floresta e doutor honoris causa pela universidade federal de Juiz de Fora(Minas Gerais).


Ambos me levam a refletir sobre a natureza; Aquela que reside em nós, e que também se projeta no mundo. Em ambas há silencio!

A quarentena que nos é imposta, carrega o “vírus da informação” sobre a vida que estávamos a viver e construir para nossas gerações futuras.

Assim como a atual imposição do virus `a quarentena física, nós já éramos especialistas em viver ausências de sentido sociais, da falta de sentido na própria experiência de vida, e estávamos nos tornando sujeitos da nossa intolerância ao ócio da vida, resistentes em ampliar nosso horizonte existencial através da contemplação de nossa subjetividade. E no exercício dessa subjetividade está a relação com a natureza. Falo do silêncio, da expansão do sonho e da contemplação. Falo da condição da reoordenação das relações para que compreendamos que, tudo é natureza!


Em seu livro, Krenak fala de um pesquisador europeu num território Hopi (EUA) que desejava falar com uma anciã. Vai encontrá-la diante de uma rocha, e pergunta a seu interlocutor sobre o que vê. E este responde: ela está conversando com a irmã dela..... que é a própria pedra.....qual o problema?!


Byng-chul Han, nos fala de um mundo de positividade extremada que vínhamos construindo. Neste mundo não há espaço para interrupções, para espaços contemplativos. O prazer extasiante configura-se sobre o fazer incessante, e sobre o éxito resultante num mercado de consumo vitorioso. Tornamo-nos os senhores escravos de nós mesmos, sem a permissão de interrupções contemplativas e “ improdutivas”. Então essa “sociedade do Desempenho”, não é uma sociedade livre, segundo Byng –Chil Han.


A quarentena em que vivemos nos confronta com essa realidade, e nessa angustia da falta de desempenho, saturamos a única janela que temos para o mundo ( as redes sociais) em ofertas de toda ordem......há um enorme ruído de vozes.....e oportunidades..... e conselhos.....e consolos!

Para o filósofo, a vitalidade comprometida pelo desempenho, leva a um “infarto da alma”!

Apenas a natureza, senhora mestra dos silêncios, pode preencher nossos vazios neste instante. O céu de um azul profundo, fruto da despoluição do ar, brilha sob nossas cabeças. Nele vejo aves planado numa altura jamais imaginada ( quisera ser um deles neste momento!!...). O farfalhar das folhas de uma `arvore em minha janela, me chama a inspirar um cheiro das brincadeiras da infância. Num canto da sala repousa um jarro, flores vermelhas e amarelas colorem meus dias iguais, vejo-as tão quietas em seu novo habitat singelo.....

A natureza, mestra dos silêncios, aponta o caminho da paz!

Tereza Guimarães

Quarentena de abril de2020

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